terça-feira, 24 de dezembro de 2013

A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos

A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos, de Fábio Santana Pessanha, foi escrito principalmente a partir dos cinco sonetos iniciais do livro Para fazer um mar, do poeta moçambicano Virgílio de Lemos, trazendo evidentemente diálogos com outros momentos de sua escrita assim como a leitura de outras obras poéticas, literárias ou filosóficas.

Em breve, o livro estará disponível nas livrarias do Brasil (inclusive virtualmente). Mas, enquanto isso, quem quiser adquirir um exemplar, basta entrar em contato com o autor pelo blog: http://propriedadedoirreversivel.blogspot.com.br. Abaixo, segue o texto da quarta capa (ou contracapa). Estão todos convidados à leitura!

De dentro de uma escrita poética, um mar foi feito... melhor, vivido. Respirando a maresia dos sonetos iniciais de Para fazer um mar, do poeta moçambicano Virgílio de Lemos, foi possível o mergulho empreendido no livro que o leitor tem agora em mãos. 
A partir de uma artesania poética, composta por morte, queda, susto e epifania, travou-se a escritura de um mar. Um mar próprio, que passa a existir, a se fecundar em cada leitura, pois essa foi a experiência realizada em A hermenêutica do mar – Um estudo sobre a poética de Virgílio de Lemos. Cada palavra presente em tal obra alinhava um nascimento, uma onda versificada em pele e escrita: poesia. E, considerando que ler significa entrar naquilo que se entranha em nossa visão, em nosso corpo, li de corpo aberto ao vento os mosaicos imagéticos dos poemas virgilianos e fui enredado por sua poética. Com isso, pude criar meu próprio mar, meu próprio caminho e me perder em minha andança: solidão de letras e presságios, música e pés descalços, gerados pela entrega aos versos desse importante e fundamental poeta moçambicano.
Agora só me resta convidar aquele que quiser desbravar suas próprias águas a cair em profundo salto. Convite feito! E o mergulho acontece durante o aceno do leitor em se molhar nessa escrita temperada com sal do mar, pôr do sol, horizonte e palavra.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Lançamento: 12 Poetas de Oeiras



Data: 29 nov 2013 (sexta-feira), 19h

Local: Livraria EntreLivros
Av. Dom Severino, 1045 - Bairro de Fátima
Teresina - PI
(86) 3234-1471

sábado, 23 de novembro de 2013

Dos livros que não lemos

[Wanderson Lima]



A pletora de livros que não lemos e que descansam ao nosso lado, em nossa biblioteca, ou em alguma livraria, à nossa espera. Isto deve ser para nós motivo de júbilo e não de desespero. (O único desespero real é o acúmulo irracional, porque compulsivo, de livros; ou, como alertava Schopenhauer, acreditarmos que a simples posse material de um livro nos dará acesso ao seu conteúdo). O desejo sincero de ler tudo o que nos interessa – mesmo que esse “tudo” seja superior à capacidade de uma vida – enche nossa vida de esperança, acena para um futuro de agradáveis encontros, nos segreda a possibilidade constante e real de uma virada em nossa existência. Quem tem muita coisa para ler não tem pressa de morrer. Olho para a estante à minha frente e vejo os dois volumes de “A Cidade de Deus”, de Santo Agostinho. Eu sei que preciso lê-los um dia. Talvez nas próximas férias, quem sabe. Aqueles dois volumes são dois faróis de esperança em minha vida... e se, lendo-os, eu me tornar outro, alguém melhor? Nem todas as promessas e expectativas positivas que compactuamos com a leitura se cumprem. Isso é óbvio e não deve nos entristecer ou desestimular. Uma esperança não cumprida que, de qualquer forma, nos move em busca do autocultivo já não pode ser creditada como tempo perdido; além disso, um grande livro que nos decepciona hoje pode nos ser fundamental amanhã – quase todo leitor tem uma história dessa natureza para contar. Os livros que ainda não lemos, mas que acreditamos com sinceridade que precisamos ler, contêm em potencial a nós mesmos numa versão, seja em que ponto for, melhorada.

sábado, 9 de novembro de 2013

Muitos poetas, poucos leitores?

Adriano Lobão Aragão 




Em julho de 2010, publiquei um texto intitulado "Ensaio de visibilidade para os olhos de um Argos", em que comento o volume da série Roteiro da Poesia Brasileira organizado por Marco Lucchesi e dedicado aos anos 2000. A referência a Argos, o mitológico gigante de cem olhos que mantinha cinquenta deles abertos mesmo quando dormia, foi extraída do próprio prefácio do livro, em que Lucchesi menciona as dimensões da empreitada que buscou realizar: um mapeamento do que de mais significativo se produziu (segundo o antologista, claro) sob a forma poética na referida década. Eis que o tema me volta à mente diversas vezes, sobretudo por conta de recorrentes observações que tenho ouvido sobre a sensação de existirem atualmente mais poetas que leitores de poesia. 

Não é de hoje que se discute isso, e há mais de uma década que, vez ou outra, sou abordado com comentários nesse sentido. Embora não tenha despertado em mim a necessidade de averiguar algum índice, e nem sei se seria possível quantificar tal situação, passei a ficar mais atento aos interlocutores e às situações em que ouço a interessante relação numérica entre poetas e leitores de poesia. Cheguei até a pensar, confesso, que pudesse ser alguma manifestação de clamor contra uma vertiginosa concorrência ou um apelo para a ampliação do mercado consumidor. Mas, como já ouvi várias vezes tal comentário de pessoas que não escrevem poemas (ou, se escrevem, não divulgam), não consigo sustentar tal hipótese para além de um ou outro caso bem específico.

Pensando em minha experiência de professor, imagino que, se os projetos relativos à poesia desenvolvidos nas diversas salas de aula espalhadas pelo país derem bons resultados, seria justamente um aumento significativo do número de escritores o que teríamos, ainda que acompanhados do devido aumento no número de leitores. Salvo raras exceções, não encontrei bons projetos de desenvolvimento de leitura de poesia para alunos de ensino fundamental que não utilizassem a produção textual como mecanismo fundamental, implicando assim a experiência autoral do texto poético. Atividades envolvendo a produção de versos calcados nas relações sinestésicas (que eu mesmo explorei em tantas aulas sobre poetas simbolistas, como forma de instigar os alunos a lerem sonetos de Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimarens e Da Costa e Silva), resultaram em esforços poéticos oriundos dos alunos mais aplicados e dos mais inclinados à produção artística (e não raramente as duas vertente estavam reunidas em um mesmo aluno). 

Se atualmente interação e participação são situações altamente valorizadas, seja na produção de objetos digitais educacionais, seja na reestruturação de currículos e projetos político-pedagógicos de escolas e secretarias de educação, seja na mídia que migra cada vez mais para a internet, seja em mecanismos como o Facebook e o WhatsApp, exemplos de alicerces de interação e participação imediata, em nada me surpreende que a sensação da existência de mais produtores que consumidores tenha se efetivado como uma realidade.

As origens de tal situação talvez decorram das propostas modernistas de 22 que aproximaram do cotidiano a estrutura e a temática da poesia, talvez da pluralização dos meios de divulgação arraigadas nos anos 70, ou, quem sabe, das estimulações construtivistas implementadas por alguns professores, talvez até da ascensão dos estudos culturais e da supressão da valorização crítica como mecanismo de consagração. O fato é que, se nas últimas semanas por diversas vezes fui questionado sobre tal situação, tenho certeza de que daqui pra frente tal sensação só irá aumentar. Aos que mergulharem nesse labirinto, desejo muito discernimento e um bocado de sorte para encontrar e compartilhar o que de melhor possa estar sendo produzido nesse exato momento, onde quer que esteja.



Publicado no jornal Diário do Povo, Teresina, 05 de novembro de 2013

sábado, 6 de julho de 2013

Contracapa

[Bruno Brasil]



malacos não levam grana, ficam confusos e tentam balear gerente de posto
após balada, fura sinal, bate em caminhão e acerta poste no centro
empresário reage a assalto, bandido erra tiro e atinge comparsa
operários denunciam trabalho escravo em construtora da capital

organizadas não dão trégua nem na páscoa: 2 ônibus quebrados
maníaco do fusca amarelo volta a atacar: carro agora é verde
morre de desgosto um dia depois do filho: bala era para ele
polícia alerta para perigo nas estradas durante o feriado

PM atende queixa de som alto e se surpreende: dois mortos
marcha pela paz termina com empurra-empurra e 11 feridos
bomba caseira assusta funcionários de prédio comercial
transtornado chuta cabeça do cobrador na radial oeste

comemora divórcio com fotos da mulher nua na internet
injeta café com leite no lugar de soro e mata idosa
por amor, molha o corpo com querosene e ateia fogo
cadáver com marca estranha causa confusão no IML
 

na capital uma morte violenta a cada 10 minutos
não reage a assalto, entrega celular e é morto
vovó do crime "empregava" até amigos dos netos
vergalhão fura cabeça e deixa operário tarado
 

"filho que deveria enterrar a gente", diz pai
defende a honra da mãe com facada no pescoço
pizza cheia de azeitona: 5 baleados na pizzaria
atropela menor, tenta socorrer e é linchado

planeja morte da filha para ficar com genro
flagrado, estelionatário sorri para câmeras
esquema de clonagem de placas desmontado
corpo sem identificação aparece em córrego

faz avó cheirar cocaína por pura diversão
planta maconha e diz: "é para fazer chá"
instala câmera e flagra babá agressora
instala gato Net e morre eletrocutado

mutilava vítimas e congelava pedaços
calouro em coma por trote violento
oferece propina a PM errado: cana


na baixada um estupro a cada hora
fim de semana violento: 14 mortos
intimida com faca e se dá mal
 

ossada misteriosa descoberta
racha termina em tragédia
presunto aparece boiando
 

recém-nascido é roubado
chacina na madrugada


bope passa o rodo
estupro coletivo

ponto

final
 

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Bruno Brasil pesquisa imprensa alternativa. É pai. Não gosta de lavar louça. E-mail: brunolsbrasil@gmail.com

domingo, 16 de junho de 2013

Midrash Centro Cultural



 
Ruy Castro e Marcelo Backes


“COMECEI A LER COM NELSON RODRIGUES”

Ruy Castro conta no Midrash como se tornou um dos jornalistas e escritores mais lidos do país

No domingo, dia 26 de maio, o Midrash Centro Cultural inaugurou o BACKES-PAPO, série de encontros comandados pelo escritor, tradutor e professor de literatura Marcelo Backes. Nesse primeiro encontro, Backes, que acaba de lançar O Último Minuto (Companhia das Letras) recebeu o escritor e jornalista Ruy Castro, autor das biografias de Nelson Rodrigues (Anjo Pornográfico, Companhia das Letras), Garrincha (Estrela Solitária, Companhia das Letras), Carmen Miranda (Carmen, Companhia das Letras), entre outros sucessos editoriais. Muito bem humorado e descontraído, Ruy contou diversos casos que marcaram sua carreira de escritor e jornalista.
Nascido em 1948, Ruy Castro falou de uma de suas primeiras memórias da infância: “Aos quatro anos, me lembro de minha mãe rindo, lendo alguma coisa no jornal. Perguntei o que era, ela me colocou no colo e leu em voz alta pra mim. Era um conto de A Vida Como Ela É..., de Nelson Rodrigues, que o jornal Última Hora publicava diariamente. Daí em diante, ela sempre lia pra mim, até que um dia eu consegui ler o título sozinho. Me lembro direitinho da emoção de decifrar a linguagem escrita pela primeira vez”.
“Comecei a ler com Nelson Rodrigues. Fui, certamente, a criança que mais entendeu de adultério no mundo”, contou Ruy, entre risos da plateia. “Eu adorava aquilo tudo. Graças ao Nelson, aos cinco anos eu já sabia ler, escrever e bater à máquina”, disse. Logo mais, o gosto pela leitura passou a incluir as crônicas de futebol: “Nelson Rodrigues era míope e, mesmo assim, narrava uma partida como ninguém. Ele não via os jogadores, mas via a alma deles”. Ruy lembrou também que foi lendo Nelson Rodrigues que ele aprendeu algarismos romanos: os folhetins Asfalto Selvagem, publicados a partir de 1959, no mesmo jornal, eram numerados em romanos.
“Na minha casa, os jornais não iam para o lixo. Não se jogavam palavras fora”
Ruy, que começou como repórter em 1967, no Correio da Manhã, no Rio, e passou por todos os grandes veículos da imprensa carioca e paulistana, falou de sua simbiótica relação com os jornais: “Na minha casa, na infância, assinávamos cinco jornais, que iam virando pilhas e pilhas, imensas. Nada ia para o lixo, não se jogavam palavras fora. É uma mania de família. Até hoje tenho esse hábito. Guardo os exemplares da semana para ler tudo no domingo. Especialmente quando o Flamengo joga. Não gosto de ver o Flamengo ser atacado e, se isso acontece, recorro ao jornal. Quando o Flamengo ataca, volto para ver o jogo”, contou o flamenguista, autor de O Vermelho e o Negro, sobre a história do time de futebol carioca.
Como biógrafo de grande prestígio e sucesso, Ruy explicou seu processo de trabalho: “Quando estou fazendo uma biografia, me torno um obsessivo. Minha esposa (a escritora Heloisa Seixas) sofre, coitada. Na biografia do Nelson, passei meses angustiado porque não conseguia descobrir a marca da escarradeira que havia na redação do jornal onde ele trabalhava. Aí, minha mulher perguntou – Mas quem é que vai prestar atenção nisso? – Ninguém, eu sei que isso não vai fazer a mínima diferença para a história, mas não posso abrir mão disso. Se abrir mão de uma informação, começo a abrir mão de outra e mais outra, e aí não faz mais sentido. Descobrir uma informação que ninguém sabe tem um prazer quase sexual”.
Outro tema abordado pelo escritor da história da Bossa Nova (Chega de Saudade, Companhia das Letras) e de Ipanema (Ela é Carioca, Companhia das Letras) foi a busca de fontes: “O mais difícil numa biografia – e o que faz total diferença – é correr atrás de pessoas que conviveram com o personagem. Nássara, Evandro Lins e Silva e Barbosa Lima Sobrinho, por exemplo, conviveram com o pai de Nelson Rodrigues, e me passaram informações valiosíssimas para a biografia dele. Jorginho Guinle foi outra fonte fundamental para mim, no livro sobre Carmen Miranda.
“Garrincha foi um homem vitorioso, dilacerado pela bebida”
Sobre a biografia de Garrincha, Ruy revelou: “Queria fazer um livro que lidasse com o tema do alcoolismo e um dia tive um estalo: Garrincha. Garrincha foi um homem vitorioso, um vencedor, que foi dilacerado pela bebida. Mas ele não bebia porque sofria. Bebia por que sua família também bebia, seu pai, seu avô... Garrincha descendia dos índios fulniôs, de Alagoas. Essa tribo tinha o antigo costume de dar uma mistura de cachaça, canela em pó e mel para as crianças pararem de chorar. Imagino que algumas deviam passar mal, e outras, com mais tolerância, podiam acabar desenvolvendo essa propensão ao alcoolismo. O Garrincha veio desse ambiente”.
Ainda sobre o jogador, Ruy contou um dos casos mais engraçados da noite: “Levei a ideia da biografia do Garrincha ao Luís Schwartz (editor da Companhia das Letras) e ele disse – Mas, Ruy, esse livro não vai vender nada. Cinquenta por cento dos leitores são mulheres, e mulheres não gostam de futebol. Você já começa com menos 50% do mercado. A outra metade você também perde, porque quem gosta de literatura não gosta de futebol – Mas não fiz um livro sobre futebol. Fiz um livro sobre uma pessoa com uma história de vida espetacular”.
"Nunca pedi autorização para escrever biografia”
Autor de romances históricos, como Era no Tempo do Rei (Alfaguarra), Ruy falou sobre seu compromisso com a verdade nos momentos em que escreve ficção e biografia. “Um dia perguntei à neta do Guimarães Rosa onde era a localização exata do Grande Sertão Veredas. – Seu avô deve ter ido muitas vezes lá, não é? – E ela respondeu – Meu avô foi uma vez só ao sertão. Ele gostava é de ir para a Europa todo ano. – Então tudo é inventado? – Sim, senão não seria ficção”, contou entre risos.
Sobre a polêmica em torno o projeto de lei que exige a autorização do retratado em biografias, Ruy revelou: "Nunca pedi autorização de nenhum dos parentes dos meus personagens para escrever sobre eles. Aliás, só fui conversar com eles para pegar mais informações quando o processo do livro estava bem adiantado. Não faz sentido pegar autorização, submeter o rascunho à aprovação e colocar um advogado para dizer o que pode e o que não pode ser revelado. O compromisso de um biógrafo é com a verdade. Até que essa questão da lei não esteja resolvida eu não me atrevo a fazer biografias."
O próximo Backes-Papo no Midrash Centro Cultural será com o também jornalista e escritor Fausto Fawcett, em 30 de junho.
Júnia Azevedo

 
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Júnia Azevedo nasceu no Rio de Janeiro, em 1965, e formou-se em Comunicação Social pela PUC RJ. Atuou por 11 anos como redatora publicitária, na área de criação. Atualmente, trabalha como redatora, jornalista e assessora de imprensa no segmento de cultura. Colabora na programação do Midrash Centro Cultural, instituição sem fins lucrativos idealizada por Nilton Bonder, no Rio de Janeiro.

domingo, 26 de maio de 2013

dEsEnrEdoS 17

www.desenredos.com.br





EDITORIAL

Na geleia global em que navegamos, a novidade é o inédito patamar de reconhecimento acadêmico-científico que galgamos: se antes já fôramos reconhecidos pelo Capes-MEC com o Qualis em Letras e História, agora a honraria se estende para as áreas de Filosofia e Teologia. É a nossa voz, plural sem perder a coerência, que devagar impõe sua marca, fruto de muito trabalho. Voz dos que amam ouvir, debater, crescer. Voz que agora, na sua 17ª metamorfose, vem de Cabo Verde trazida pela consciência crítica do grande épico que é Corsino Fortes. Voz criativa de poetas e narradores de várias latitudes do Brasil. Voz sagaz de ensaístas e pesquisadores que nos trazem notícias de Calderón, Machado, Nelson Rodrigues, Borges, Fellini e tantos outros. Aos que gostam de falar, aos que gostam de ouvir, boa leitura!

Os editores

segunda-feira, 29 de abril de 2013

quarta-feira, 27 de março de 2013

Transe (2006), de Teresa Villaverde






Por estes dias, uma frase atribuída a Tom Jobim não me sai da cabeça: “O Brasil não é para principiantes”. Não vou aqui explorar a gama de sugestões contidas no dito de Jobim, mas apenas pedi-lo emprestado para falar desta magnífica diretora portuguesa: o cinema de Teresa Villaverde não é para principiantes. Não é, em primeiro lugar, por sua visceralidade difícil de suportar, mesmo por aqueles que estão afeitos à violência estilizada e paródica do cinema americano; em segundo lugar, porque se trata de um cinema vinculado àquela vertente do cinema de autor europeu, com planos lentos e elaborados, pejados de sugestões simbólicas, e estrutura narrativa quebrada. Não, não estou sugerindo que Villaverde apenas mova com competência os clichês típicos do cinema de autor: há nela uma clara busca de novas soluções, na construção narrativa e no posicionamento da câmera, que não redunda somente em rebarba esteticista.

Teresa Villaverde, se não for abuso reduzi-la a uma “escola”, pode ser colocada entre os “discípulos” de Tarkovski, a exemplo de Sokurov e de Béla Tarr (ainda que, admitamos, num patamar um pouco abaixo, por enquanto, destes dois).  Podemos caracterizar esta escola de Tarkovski por um conjunto de traços estilísticos, como o plano-seqüência, o travelling e narrativa não-linear e poética, etc. Mas podemos também caracterizá-la do ponto de vista moral e, resumindo, dizer que tal escola evita a beleza meramente funcional, que não esteja a serviço da busca da verdade e no contraponto ao esvaziamento espiritual de nossa época. Então, em última instância, o cinema de Teresa Villaverde não é para principiantes porque ele exige comprometimento moral do espectador: não dá para ir a um cinema a fim de “curtir” um filme como Transe (2006). Ou até dá (há, afinal, todo tipo de espectador que se possa imaginar: uma pessoa me disse que assistiu 9 vezes ao Tio Boonmee do Apichatpong, enquanto a maioria não o suporta por 20 minutos), mas não foi para esse fim que o filme foi pensado.

Transe conta a história de Sónia, uma russa que, cansada do seu país e dominada por uma angústia intensa, resolver ganhar a vida na Europa, numa trajetória que se inicia na Alemanha e desemboca em Portugal. Teresa Villaverde constrói uma história bifurcada a que cai muito bem o nome “transe”, vocábulo que tanto pode indicar momento difícil, crise, como sugere um estado inconsciente do sujeito, hipnotizado ou dominado por forças desconhecidas. Transe é construído com a pretensão de ser, ao mesmo tempo, um filme-denúncia (mostrando uma poderosa rede de prostituição de emigrantes envolvendo a comunidade européia) e um filme sobre os subterrâneos da mente, com ressonâncias metafísicas. Quer mostrar um transe-crise e um transe-hipnose.

Tão alta pretensão tem seu preço: a sensação de falta de urdidura. Transe é, ao mesmo tempo, um filme meticulosamente pensado e um filme mal costurado. Não faltou competência artesanal à autora, mas o salto do social ao simbólico-metafísico custou-lhe caro. Se, de saída, ela aceitasse a descostura como um dado estético, tudo bem. Mas não: senta-se em Teresa Villaverde, desde o começo, o esmero da elaboração prévia, a tentativa de controle total da encenação, a antipatia com o acaso. Há cenas isoladas em Transe que, sem sombra de dúvida, estão entre as mais belas e elaboradas que se fez no cinema pelo menos nos últimos dez anos. Mas o conjunto atinge o paradoxo de ser ao mesmo tempo bem elaborado e mal urdindo (refiro-me à harmonização dos planos real e onírico). A impressão que tenho, vendo Transe, é que real e símbolo se sobrepõem ali sem construir uma síntese.

Como crítico, costumo falar do que o filme é, não do que poderia ser. Mas desta vez não resisto: penso que se Teresa Villaverde fosse menos geômetra, se ela não se aferrasse tanto à tese de que sua protagonista deveria ilustrar a emigrante que desce, contra a vontade, ao último degrau da dignidade humana, ela teria feito uma absoluta, incontestável obra-prima. Por exemplo: para que o mau gosto da cena de zoofilia se não para comprovar que Sónia chegou ao cume da degradação? O filme pedia a cena ou a diretora queria coroar sua tese?

Duas observações finais. A atriz que protagonizou o filme (a portuguesa Ana Moreira) é simplesmente um monstro de talento e coragem. Arrisco a previsão de que Teresa Villaverde vai chegar à obra-prima, cedo ou tarde. Guardem este nome: Teresa Villaverde.  


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013